sábado, 24 de março de 2012

Graças II (Torto soneto de Graças)

Quem dera o cantar de um galo
na manhã tortuosa de um dia sólido
fosse suficiente para deixar-me sóbrio
E fazer ser tudo aquilo que eu mesmo falo?

Quem sabe o nascer de uma lua
no meio do dia que já cedo evito
não desvelasse a mim a verdade crua
Do maior mistério do sei-que-existo?

Quem espera futuro vindo de duas letras?
Futuro de coisas assim tão caretas?
Futuro de palavras assim tão mortas?

Quem dera o calor me queimasse agora
Mas sinto-me tão ártico nesta hora
Que minha voz sai um tanto torta.

Graças

Minha desgraça te revelo:
É não ter muito que dizer a toda hora
É não conseguir dizer o que eu quero
Minha desgraça eu te conto:
É sempre querer o norte
E não saber pra onde fica esse ponto
Minha desgraça, acredite
É escrever todo um poema
E não ter a quem eu o dedique

sexta-feira, 23 de março de 2012

Poema de Guerra III

Moralmente abatido recolhe a cauda
Um grunhido em nome da honra
Veste cinza em nome da paz
Passeia à luz da lua e dorme à sombra
Um grito meio lúdico, um delírio
Letras gregas, um alfa um teta
A cada dia que passa há menos gente esperta
Derrotado e ferido ele se esconde
Um berro ao longe o denuncia
É a dor feita em feia grafia
Um suspiro de desconforto
Com a precária situação
Ainda somos o que fomos?

quinta-feira, 22 de março de 2012

Versos vermificados

Se na vida após a vida
ainda há vida
pego meu desejo reprimido
e vou de encontro à dama esquecida
tão morta, tão viva... Apodrecida

Agora alimento dos bons vermes
rainha dos imensos paquidermes
miro então o corpo esquecido
o sangue em minha veia borbulhando
o sangue em sua veia se esvaindo

A terra atrapalha o bom ato.
À norma isso é um imenso desacato!
Não posso mais gozar de minha amada
não a posso permitir que seja inútil
não sou um homem assim tão fútil...

Por isso hei de amar sua pele gélida
e acariciar com fogo sua nádega pútrida
não deixarei a carne morta de seu peito
não deixarei que a norma tão fria e culta
me afaste de minha amada puta.

sábado, 17 de março de 2012

Prefácio para o que vai vir

Desde sempre, e sempre sem motivo algum, escrevo.
Com o vento no calor ardente, e ardendo a alma, leio.
Semeio, com fortes e fracas sementes, coisas da minha mente
E da alma, que lavo com um grande amálgama.
Faço o possível para me renovar.

Desde sempre, e sempre será sem motivo algum, escrevo,
E se possível, creio escrever sempre o impossível.
Todo o possível é monótono demais para mundo.

Fato

De fato
De fato nada eu sei
Nem me interessa
Vamos, eu sei que é o que você quer
Largar tudo, perder tudo, recomeçar
Um lugar para recomeçar?
A onde a gente estiver
É lá o local sagrado, florido
Com ursos e unicórnios, não importa
Pode haver até dragões, leões
Ou aquele seu cão que morde meu calcanhar
É lá, aonde nós, querida, somente nós
Saberemos como chegar e quando chegar
É lá que é o nosso lugar
Para recomeçar
Para começar
Para terminar.

Saudades

Chega um momento em qualquer vida
Que as perdas que deixamos para trás
Que não demos muita importância
Que falamos que não queríamos mais
Se juntam e formam um grande vazio
Aí, percebemos que cada minúsculo nos faz falta
E o grande vazio se torna um todo
Uma horda de horrores
De um passado que somente passou
De um vazio que um vazio deixou.

Dadiva dos deuses

O elfo doente pôs-se de pé
O vento soprado era dadiva dos deuses
O canto dos bardos
A harpa das musas
A vida esplendida
Era dadiva dos deuses

O elfo atento olhou para as árvores
O negro pardal era dadiva dos deuses
O bater das garças
O cantar dos homens
O viver dos mortos
Era dadiva dos deuses

O elfo tinha uma enorme ferida
O sangue corrente era dadiva dos deuses
O suor nervoso
O escuro aproximante
O fim inexorável
Era dadiva dos deuses.

Lua

Nada é eterno. Uma pena?
Um dilema dos fracos, medíocres
O velho para a lua acena
A lua surpresa sugere e sorri
Uma troca de olhares
Um segundo depois morre a lua
(O velho nunca nasceu).

A invenção das coisas humanas

Que milagre genial é este!
Descobriram a pólvora de novo!
Mais fogo, mais fogo!
Que milagre genial ao povo!
Não dou mais uns dois séculos
para que ela seja descoberta...
... De novo descobriram a pólvora.
Mais fogo, mais fogo
Aí a pólvora acaba
E por mais dois dias
Lembra-se que um dia a pólvora foi descoberta
E novamente se descobre outra coisa.
(E finalmente se descobre outra coisa.)

Nós ou Eus

I

Eu, filho duma poeira qualquer
Vivo num instante infinito
Choro por mais existência
Porém, sumo antes das lágrimas surgirem.

II

Eu, filho dum deus bastardo
Pai duma natureza fictícia
Não sou bom nem tenho malícia
Sou apenas meu pai.

III

Eu, apenas eu a todo o momento
Luto, de luto, faço história
Mas choro, e muito, ao saber
Que minha história acaba com os nossos.

IV

Eu, um não ser inexistente
Bravo guerreiro valente que
Não suportou ser minúsculo
E broto a força que morreu.

Pedras

I

Perdi minha pedra filosofal
Vaguei sozinho na solidão
E procurando de grão em grão
Achei a razão de minha existência:
minha existência.

II

O fazer da pedra
me é inexplicável!
E se cada fazer de pedras
fosse diferente do que hoje é
eu não saberia.
Mas eu sei o que é uma pedra
É isto sobre o que escrevo.

III

A chuva que aos poucos
Amolece as tantas pedras
Faz de nós, loucos, amáveis
Ao destino inexorável
Pois a pedra que dizemos
E a água que escrevemos
São a nossa salvação.

IV

Almejo uma simples coisa
fácil de conseguir:
almejo infinidade de vida
até o dia de minha morte.

Conversa I

Meu senhor, vês estás gotas de chuva?
Não são nada.
Talvez sejam gotas que lavem o céu...
Não são, não é?
No entanto, estes versos que o senhor os lê
São uma suave e severa resposta
Às gotas d´água
A cada gotícula d´água
Que cai.

A rude metafísica

Vazia e inexpressiva
Sedimentada em sua virtude
Sentada sobre a luz color de uma lua
A expressão inócua, nua, ruge
Talvez se não fosse por sua inexpressão
Todos os ausentes tivessem notado e mais
Talvez todos tivessem até perguntado
Quem é - a moça tão rude?

A lâmina polida de carbono

Começa com pedra e pula
Pula para amor
Dispersa tudo e o vício
Vicia no amor
Barbeia-se, depila
- Dez pilas para o café
- Dê pilhas para ligar
E completo de cafeína e ligado nas pilhas
Sente-se pronto para amar.
Vive intensamente o instante do vento
E chora chorosamente o bobo choro
E ama a gana deste novo tesouro
E a lâmina que faz a barba
Ao sangrar sem um querer
É dor, amada e dada dor, sem merecer
Abre um dicionário, uma enciclopédia
Um livro de filosofia e um de história da idade média
E tem todos - para clichê deste poema-
Pergunta - e nesse meio a rima- a relação da dor com o amor
Têm-se apenas uma receita
De eras de escuridão
Para o amor, para a paixão
Para a dor da solidão
A lâmina polida de carbono
- De ouro também tem sua valia-
Que tira do tolo o sangue
Produz uma dor - sem igual valor-
Que parecendo em conjunto com gangue
Destrói não só o seu dia
Mas também a dor - e o amor-
Que o amor traria.

Luneta Improvisada

Me admira a estrela fumegante
Cadente como o raio de um sol distante
Passeando no vácuo universo ardente
Soltando sua luz no porvir restante
Quem dera eu do muro aqui de casa
Sentisse ao menos uma vez a fugaz brasa
Do vento que ela soprou
Mas só vejo, e mesmo assim satisfeito
Do reflexo de um óculos escuro
(Sempre em cima do muro)
O rastro de uma grandeza.

Meu enterro

No indiscutível enterro da metonímia
No celebre cemitério da linguagem
Velavam junto o meu pobre corpo
Morto, sorrindo e sem piedade

Uns sussurros distantes bem diziam
Que minha morte não deveria ser lembrada
Um suicida não merece tal respeito
De certo era uma mente alienada

Mal sabem eles os reais motivos
Que me levaram à morte de verdade
Não morri porque era um infeliz
Me matei pois tinha excesso de felicidade.

Mergulho em céu aberto

E a palavra pulou do barco
Boiou no som mudo do mundo
Boiou num desgaste profundo
E o que ela representava em sua morte?
Tudo e todos

E o que busca dizer
Foi dito no dizer
E disse? Só uma palavra qualquer
Perdeu-se com o tempo
Afundou-se no próprio fundo
E é triste

Cada palavra dita e não dita
Forma uma ponte
Cada pensar palavreado que é
Constrói um ponte
E o rio cujas palavras pularam
Transborda sem cessar.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Declarar-ação

Com amor, com carinho
De um homem, de um passarinho
Expresso minha afeição
Perdoe-me, no entanto, a insinuação
É que me é novo e estranho
Declarar-me à minha imaginação.




Nós e Outros Poetas

Mesmo sendo eu, assim como todos, um ser único, sou superlotado de diversos. Diversos sei-lá-o-quê. Diversos diversos do que há. É o conjunto de tudo que não sei explicar que forma a singularidade minha, a de todos.

Não acanho-me a chamar-me de poeta. Sou plural na minha singularidade. Mais de um que formam um. Um uno dentre todas as possibilidades. Um uno entro o Nada. E em toda essa possibilidade que é o nada, cada nada que eu sou, é um poeta. É um ser. É.

Parto da possibilidade e da tese que ser humano é ser poético. A criatividade humana é inata, ser humano é criar. Nós, mesmo que num instante tão efêmero, já fomos ou somos ou até seremos poetas. Nós. Humanos. Todo o instante é um instante propício às possibilidades vigentes, evidentes ou não evidentes. Todo momento é momento de poesia, criação independente de juízo. O sorriso puro é poesia, criado de algo tão verdadeiro e necessário. O som tão despercebido que passa, muito mal notado, é poesia. É humano.

A áspera angustia, mas também rara e potente, é sanada com a beleza, o bem humano criado pelo humano. Ao se deparar com o questionamento do porquê de tudo, abobar-se, embebedar-se na beleza da própria criação - própria quando se diz respeito ao que é próprio do ser humano- têm-se, ao menos um pouco, a resposta, a solução, um foco, um menos nada, para a angustia. O fundo do poço, sem sobras de dúvida, é o melhor posicionamento para se estar. De lá se vê tudo ao longe, panoramicamente. É lá que se pensa, que se cria, que se poetiza. É se criando que se desvela a possibilidade de felicidade, que numa investigação mais a fundo revela-se uma escolha sempre possível. A poesia é salvação humana, a poesia é humana!

Tudo isto para dizer o porquê de Nós e Outros Poetas. Cada passo meu é resultado de tudo. De todos. Cada passo meu é um passo do ser humano, e cada passo do ser humano é um passo meu. Cada passo é.