quinta-feira, 22 de março de 2012

Versos vermificados

Se na vida após a vida
ainda há vida
pego meu desejo reprimido
e vou de encontro à dama esquecida
tão morta, tão viva... Apodrecida

Agora alimento dos bons vermes
rainha dos imensos paquidermes
miro então o corpo esquecido
o sangue em minha veia borbulhando
o sangue em sua veia se esvaindo

A terra atrapalha o bom ato.
À norma isso é um imenso desacato!
Não posso mais gozar de minha amada
não a posso permitir que seja inútil
não sou um homem assim tão fútil...

Por isso hei de amar sua pele gélida
e acariciar com fogo sua nádega pútrida
não deixarei a carne morta de seu peito
não deixarei que a norma tão fria e culta
me afaste de minha amada puta.

sábado, 17 de março de 2012

Prefácio para o que vai vir

Desde sempre, e sempre sem motivo algum, escrevo.
Com o vento no calor ardente, e ardendo a alma, leio.
Semeio, com fortes e fracas sementes, coisas da minha mente
E da alma, que lavo com um grande amálgama.
Faço o possível para me renovar.

Desde sempre, e sempre será sem motivo algum, escrevo,
E se possível, creio escrever sempre o impossível.
Todo o possível é monótono demais para mundo.

Fato

De fato
De fato nada eu sei
Nem me interessa
Vamos, eu sei que é o que você quer
Largar tudo, perder tudo, recomeçar
Um lugar para recomeçar?
A onde a gente estiver
É lá o local sagrado, florido
Com ursos e unicórnios, não importa
Pode haver até dragões, leões
Ou aquele seu cão que morde meu calcanhar
É lá, aonde nós, querida, somente nós
Saberemos como chegar e quando chegar
É lá que é o nosso lugar
Para recomeçar
Para começar
Para terminar.

Saudades

Chega um momento em qualquer vida
Que as perdas que deixamos para trás
Que não demos muita importância
Que falamos que não queríamos mais
Se juntam e formam um grande vazio
Aí, percebemos que cada minúsculo nos faz falta
E o grande vazio se torna um todo
Uma horda de horrores
De um passado que somente passou
De um vazio que um vazio deixou.

Dadiva dos deuses

O elfo doente pôs-se de pé
O vento soprado era dadiva dos deuses
O canto dos bardos
A harpa das musas
A vida esplendida
Era dadiva dos deuses

O elfo atento olhou para as árvores
O negro pardal era dadiva dos deuses
O bater das garças
O cantar dos homens
O viver dos mortos
Era dadiva dos deuses

O elfo tinha uma enorme ferida
O sangue corrente era dadiva dos deuses
O suor nervoso
O escuro aproximante
O fim inexorável
Era dadiva dos deuses.

Lua

Nada é eterno. Uma pena?
Um dilema dos fracos, medíocres
O velho para a lua acena
A lua surpresa sugere e sorri
Uma troca de olhares
Um segundo depois morre a lua
(O velho nunca nasceu).

A invenção das coisas humanas

Que milagre genial é este!
Descobriram a pólvora de novo!
Mais fogo, mais fogo!
Que milagre genial ao povo!
Não dou mais uns dois séculos
para que ela seja descoberta...
... De novo descobriram a pólvora.
Mais fogo, mais fogo
Aí a pólvora acaba
E por mais dois dias
Lembra-se que um dia a pólvora foi descoberta
E novamente se descobre outra coisa.
(E finalmente se descobre outra coisa.)