Talvez se eu não ficasse tanto olhando para aquele quarto vazio - que um dia teve uma cama de casal, um criado mudo e um guarda roupas-, meu coração não fosse tão incompreendido. O frio desse inferno solitário, por alguma espécie de assimilação, me causa e me torna fria. Agasalhos não tem sido suficientes, estes só aquecem meu corpo. Tenho mergulhado no café, sem açúcar, tão amargo quanto anda meu espírito e meu coração.
Ontem mesmo, depois que fitei rapidamente aquele quarto vazio, não pude fazer outra coisa senão ligar a TV e assistir aquele seriado, dramática e emotiva. Nada melhor do que quando mergulhada em tristeza, se entristecer mais com as tristes coisas de outros. Chorei tanto quando Adelaide Pinha, a sofredora da série. Depois, mergulhei minha mente em livros e assim ocupei aquele sábado temeroso e assustador.
O coração, contudo, ficou sempre ocupado com a lembrança - talvez inverossímil - dos ótimos momentos. Da barba dele roçando meu rosto, das mãos grandes sobrepujando as minhas. Da argumentação chata sobre a utilidade dos miúdos desenhos em minhas unhas. De como ele chegava, por trás, em passos inaudíveis, e sussurrava roucamente coisas lindas em meu ouvido. Emendando com suas mãos firmes em minha cintura e querendo, onde quer que estivéssemos, dançar naquele instante comigo.
Abri um vinho, vinho seco - que tanto odeio e ele tanto ama -, e sentei na cama enquanto ouvia tangos de Gardel. Imediatamente veio à minha cabeça a sensação de eu e ele estarmos em Buenos Aires, sentados em um restaurante, em cadeiras na calçada, admirando a lua, tão magnifica, e nos declarando, em juras metrificadas, o nosso amor. Imaginei até o cochicho do garçom a respeito de quão melosos estávamos.
A verdade é que eu estava e estou perdendo um pouco da pouca sanidade que tenho. Em confusos momentos me sinto péssima por não mais o ter. Dói o peito. A sensação de solidão é frustrante, ver o vazio espacial que me cerca me deixa melancólica. Tudo porque olho para aquele quarto vazio. Durmo em outro quarto, mais aconchegante, mais lindo, mas o vazio do outro ainda me incomoda.
Não sei se realmente devo chorar, e se quando choro, se realmente sei o porquê do choro. Abandonei-o, fui tola. Abandonei-o por medo, por indecisão. Ele, tão apaixonado, sempre fazia questão de deixar isso demasiadamente claro. Eram óbvias as intenções dele para comigo. Eu, seca, sempre desconversava tudo. No fundo eu nutria sentimentos por aquele homem, realmente nutria. Mas estava confusa, e sempre fui acuada. A pressão me incomoda e fujo. Dispensei-o, dispensei-o e acho que eu realmente o amava. Por isso, não sei se choro porque estou só ou se choro porque o deixei partir.
Ele ainda está perto, sempre. Mas não é mais a mesma coisa. Tão perto de mim e sei que não posso tê-lo. A amizade, finjo eu, é suficiente. Mas toda vez que eu ver aquele quarto, lugar onde tantos sonhos foram criados, eu irei chorar e sentir falta do amor que troquei por nada.
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Marcus.
Eis uma experiência, usando de um lírico feminino.
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