O seu afago me acalanta a alma
E sei que sou o seu desejo, sei.
A sua presença, mesmo que eu minta
Faz com que eu me sinta tão especial.
Bem sei que o mundo não é como arte,
Em que o querer faz tudo tão real,
E que faz parte da vida o desespero,
Para a felicidade não ser coisa boba.
Talvez a boba aqui seja somente eu,
Que não enxergo o que está tão claro,
E me desculpe se exagerei, desculpe,
Mas penso que meu amor é caro.
O teu sorriso me sustenta a alma
E tuas carícias me fomentam a vida.
E me alimento da sua ideia perfeita,
Mas sei que se feita perderá a magia.
O nosso relacionamento é tolo, admita.
Eu sou durona e não aceito o fato,
Você, por outro lado, é chato,
Achando que vivemos um conto.
E se ao caso for mesmo um conto?
Uma literatura bem narrada, e se for?
Poderá ser uma tragédia triste, quem sabe
Até a história do que não existe.
- Quem sabe a história desse nosso amor.
segunda-feira, 9 de julho de 2012
Quarto vazio
Talvez se eu não ficasse tanto olhando para aquele quarto vazio - que um dia teve uma cama de casal, um criado mudo e um guarda roupas-, meu coração não fosse tão incompreendido. O frio desse inferno solitário, por alguma espécie de assimilação, me causa e me torna fria. Agasalhos não tem sido suficientes, estes só aquecem meu corpo. Tenho mergulhado no café, sem açúcar, tão amargo quanto anda meu espírito e meu coração.
Ontem mesmo, depois que fitei rapidamente aquele quarto vazio, não pude fazer outra coisa senão ligar a TV e assistir aquele seriado, dramática e emotiva. Nada melhor do que quando mergulhada em tristeza, se entristecer mais com as tristes coisas de outros. Chorei tanto quando Adelaide Pinha, a sofredora da série. Depois, mergulhei minha mente em livros e assim ocupei aquele sábado temeroso e assustador.
O coração, contudo, ficou sempre ocupado com a lembrança - talvez inverossímil - dos ótimos momentos. Da barba dele roçando meu rosto, das mãos grandes sobrepujando as minhas. Da argumentação chata sobre a utilidade dos miúdos desenhos em minhas unhas. De como ele chegava, por trás, em passos inaudíveis, e sussurrava roucamente coisas lindas em meu ouvido. Emendando com suas mãos firmes em minha cintura e querendo, onde quer que estivéssemos, dançar naquele instante comigo.
Abri um vinho, vinho seco - que tanto odeio e ele tanto ama -, e sentei na cama enquanto ouvia tangos de Gardel. Imediatamente veio à minha cabeça a sensação de eu e ele estarmos em Buenos Aires, sentados em um restaurante, em cadeiras na calçada, admirando a lua, tão magnifica, e nos declarando, em juras metrificadas, o nosso amor. Imaginei até o cochicho do garçom a respeito de quão melosos estávamos.
A verdade é que eu estava e estou perdendo um pouco da pouca sanidade que tenho. Em confusos momentos me sinto péssima por não mais o ter. Dói o peito. A sensação de solidão é frustrante, ver o vazio espacial que me cerca me deixa melancólica. Tudo porque olho para aquele quarto vazio. Durmo em outro quarto, mais aconchegante, mais lindo, mas o vazio do outro ainda me incomoda.
Não sei se realmente devo chorar, e se quando choro, se realmente sei o porquê do choro. Abandonei-o, fui tola. Abandonei-o por medo, por indecisão. Ele, tão apaixonado, sempre fazia questão de deixar isso demasiadamente claro. Eram óbvias as intenções dele para comigo. Eu, seca, sempre desconversava tudo. No fundo eu nutria sentimentos por aquele homem, realmente nutria. Mas estava confusa, e sempre fui acuada. A pressão me incomoda e fujo. Dispensei-o, dispensei-o e acho que eu realmente o amava. Por isso, não sei se choro porque estou só ou se choro porque o deixei partir.
Ele ainda está perto, sempre. Mas não é mais a mesma coisa. Tão perto de mim e sei que não posso tê-lo. A amizade, finjo eu, é suficiente. Mas toda vez que eu ver aquele quarto, lugar onde tantos sonhos foram criados, eu irei chorar e sentir falta do amor que troquei por nada.
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Marcus.
Eis uma experiência, usando de um lírico feminino.
Ontem mesmo, depois que fitei rapidamente aquele quarto vazio, não pude fazer outra coisa senão ligar a TV e assistir aquele seriado, dramática e emotiva. Nada melhor do que quando mergulhada em tristeza, se entristecer mais com as tristes coisas de outros. Chorei tanto quando Adelaide Pinha, a sofredora da série. Depois, mergulhei minha mente em livros e assim ocupei aquele sábado temeroso e assustador.
O coração, contudo, ficou sempre ocupado com a lembrança - talvez inverossímil - dos ótimos momentos. Da barba dele roçando meu rosto, das mãos grandes sobrepujando as minhas. Da argumentação chata sobre a utilidade dos miúdos desenhos em minhas unhas. De como ele chegava, por trás, em passos inaudíveis, e sussurrava roucamente coisas lindas em meu ouvido. Emendando com suas mãos firmes em minha cintura e querendo, onde quer que estivéssemos, dançar naquele instante comigo.
Abri um vinho, vinho seco - que tanto odeio e ele tanto ama -, e sentei na cama enquanto ouvia tangos de Gardel. Imediatamente veio à minha cabeça a sensação de eu e ele estarmos em Buenos Aires, sentados em um restaurante, em cadeiras na calçada, admirando a lua, tão magnifica, e nos declarando, em juras metrificadas, o nosso amor. Imaginei até o cochicho do garçom a respeito de quão melosos estávamos.
A verdade é que eu estava e estou perdendo um pouco da pouca sanidade que tenho. Em confusos momentos me sinto péssima por não mais o ter. Dói o peito. A sensação de solidão é frustrante, ver o vazio espacial que me cerca me deixa melancólica. Tudo porque olho para aquele quarto vazio. Durmo em outro quarto, mais aconchegante, mais lindo, mas o vazio do outro ainda me incomoda.
Não sei se realmente devo chorar, e se quando choro, se realmente sei o porquê do choro. Abandonei-o, fui tola. Abandonei-o por medo, por indecisão. Ele, tão apaixonado, sempre fazia questão de deixar isso demasiadamente claro. Eram óbvias as intenções dele para comigo. Eu, seca, sempre desconversava tudo. No fundo eu nutria sentimentos por aquele homem, realmente nutria. Mas estava confusa, e sempre fui acuada. A pressão me incomoda e fujo. Dispensei-o, dispensei-o e acho que eu realmente o amava. Por isso, não sei se choro porque estou só ou se choro porque o deixei partir.
Ele ainda está perto, sempre. Mas não é mais a mesma coisa. Tão perto de mim e sei que não posso tê-lo. A amizade, finjo eu, é suficiente. Mas toda vez que eu ver aquele quarto, lugar onde tantos sonhos foram criados, eu irei chorar e sentir falta do amor que troquei por nada.
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Marcus.
Eis uma experiência, usando de um lírico feminino.
quinta-feira, 5 de julho de 2012
Dissertações sobre a amizade ou o Testamento ou O Último Canto (2011)
I
Cantem-me a verdade, Ó musas
Dêem-me a sóbria voz sobre a amizade
Este sentimento tão honroso
Que muitos clamam ser de verdade!
Eu, no entanto, discordo destes
Que proclamam ser ela existente
O que vejo nesse mundo tão latente
São pessoas se vendendo por favores
Causando, então, milhões de horrores
Destruindo, pois, bilhões de sonhos.
Dêem-me a sóbria voz sobre a amizade
Este sentimento tão honroso
Que muitos clamam ser de verdade!
Eu, no entanto, discordo destes
Que proclamam ser ela existente
O que vejo nesse mundo tão latente
São pessoas se vendendo por favores
Causando, então, milhões de horrores
Destruindo, pois, bilhões de sonhos.
Eu admito, não sei o que é isto
Não sei se tenho amigos
Não sei nem se tive amigos
Dizem, porém, que é assim
Do nada a amizade vai e surge
E o acaso o destino nos presenteia
Com o dom da amizade tão alheia
Que não queremos então nada em troca
Mas eu, ser solitário e intocável
Vejo-me distante deste planetário...
Digam-me, Ó musas, se puderem
Se sou eu o monstro rude
Bem punido por ser monstro
Ou se vocês que me escolheram
Esta punição de ser assim tão solitário
Digam-me, mas digam-me com sinceridade
Existe de verdade a amizade?
Pois o que tenho não sei sequer o que é
Se os que tenho não respondem ao meu chamado
Ou sou eu que deturpo a amizade?
Minha vida vazia e destruída
Culpa minha que idealizei uma mentira
Pois o que eu pensava por amizade
Não é o que de fato é de verdade!
Eu criei, pois, um mundo novo
Onde seres por intuição já entendiam
O problema que os amigos lá sentiam
E em um chamado racionalmente inexplicável
Iam ao suplicio do miserável
E o miserável então seria curado.
II
Mas eis que descobri, Ó caras musas
Que isto, no entanto, não existe
Põe-se, pois, a si antes do outro
E tem-se a amizade como triste
Ideal prensando, preso e morto...
Que isto, no entanto, não existe
Põe-se, pois, a si antes do outro
E tem-se a amizade como triste
Ideal prensando, preso e morto...
III
Ó deuses imortais, filhos sabidos
Guiem-me a uma verdade verdadeira
Digam-me sobre a tal da amizade
Contem-me a história por inteira
Falem-me de sua possibilidade
Deem-me um pouco de sua sabedoria
Cantem-me os cantos, por piedade
Tirem-me desta dura agonia
Guiem-me a uma verdade verdadeira
Digam-me sobre a tal da amizade
Contem-me a história por inteira
Falem-me de sua possibilidade
Deem-me um pouco de sua sabedoria
Cantem-me os cantos, por piedade
Tirem-me desta dura agonia
Suponhamos, então, que me provaram
Que a amizade realmente é existente
Deem-me, pois, um amigo destes
Que sempre está ao lado da gente
E aí terei eu, amados deuses,
A prova máxima de que estava errado
E que o errado sou eu não todo o resto
Que não tenho amigos pois eu não presto
A cólera da solidão já derrubou-me
Funesto canto os feitos de um passado
Que outrora fora visto como digno
Hoje não passado de um pecado
De um abuso contra mim por ter errado
E na insanidade então eu ter criado
Uma coisa inexistente como eu concebera
A amizade, real amizade, que nunca nascera.
IV
“Eis que a amizade é um dom humano
Elixir supremo sem o qual não vivemos
Dois corpos dividindo uma só alma
Duas almas que tornam-se antes uma
O espelho uma da outra refletido
Elixir supremo sem o qual não vivemos
Dois corpos dividindo uma só alma
Duas almas que tornam-se antes uma
O espelho uma da outra refletido
O amigo, portanto, é o herói
O que destrona mundos e montanhas
O que salva a gente do horror
O amigo é o salvador esperado
Que conhece nosso terror de olhos vendados.
Colocar-se-á depois de você o amigo
Sua vida é a vida dele e por isso
A qualquer momento e em qualquer
Lugar, ele estará, lá parado, correndo
Em direção a você... Uma alma.
No entanto a amizade não é favor
Não é esperar a ajuda sempre
A amizade é apenas amizade
Há favores por ser amizade
Não amizade por haver favores”
Disse-me assim qualquer um
Deu-me esta explicação desexplicada
Tocou-me o coração esta facada
Facada, pois fez-me perceber
De pouco em pouco o meu desfalecer
V
Cantem-me,Ó homens
O seu quintal de contos
Abram a boca e cuspam
O que entendem por amizade
O seu quintal de contos
Abram a boca e cuspam
O que entendem por amizade
Desenhem se preferirem
Pratiquem esta insolência
Cuspam em mim sua amizade
O que entendem por amizade?
Por vocês, Ó homens
Fui iludido e fui traído
Injetaram em mim um desconceito
Uma mentira aceita que aceitei
Uma calúnia brava que levei
E pus-me a nomear amigos
Insanamente. Deste modo
Pequei contra meu éthos.
Errei contra mim já de início
Tomei aquilo sem nem pensar
Clamei aos homens por amizade
Sem, no entanto, a amizade eu cuidar
Vocês, homens, precisam
De tantos amigos assim?
Eu quero apenas um
Não uma fila sem fim!
VI
Disse-me uma dama certo dia que o problema
Talvez fosse comigo, e é, e disse-me monstro
A amizade erro não tinha, era tão subjetiva e
Inexplicável. Culpou-me por toda a burrice
Acusou-me de tolice, verme imundo nomeou-me
Sofri a ira das musas. Ó musas, ainda me ouvem?
Meu poema não segue mais, perdi sua amizade?
Ah é, nunca a tive de verdade. E vocês, Ó deuses?
Abandonaram-me também? Restam-me homens?
Estes homens cruéis e loucos, estes homens?
Que não se identificam comigo, que não
Que não me compreendem ou entendem?
Deixam-me sozinho, perdido e louco
Com somente homens por possibilidade
De conhecer na própria busca a amizade?
Que crueldade sem tamanho a de vocês
Deuses e Musas. Castigam-me só pode
Ou mostram-me o que afirmo
Que a amizade não exise, é lenda, é falsa
Que o homem existe, é lenda, é falso.
Talvez fosse comigo, e é, e disse-me monstro
A amizade erro não tinha, era tão subjetiva e
Inexplicável. Culpou-me por toda a burrice
Acusou-me de tolice, verme imundo nomeou-me
Sofri a ira das musas. Ó musas, ainda me ouvem?
Meu poema não segue mais, perdi sua amizade?
Ah é, nunca a tive de verdade. E vocês, Ó deuses?
Abandonaram-me também? Restam-me homens?
Estes homens cruéis e loucos, estes homens?
Que não se identificam comigo, que não
Que não me compreendem ou entendem?
Deixam-me sozinho, perdido e louco
Com somente homens por possibilidade
De conhecer na própria busca a amizade?
Que crueldade sem tamanho a de vocês
Deuses e Musas. Castigam-me só pode
Ou mostram-me o que afirmo
Que a amizade não exise, é lenda, é falsa
Que o homem existe, é lenda, é falso.
VII
Ó homens, deuses e musas
Não posso racionalizar a amizade
Talvez exista, talvez não resista
Talvez seja lenda, talvez uma prenda
Para a gente enganar. Quem sabe?
Se há problema não é com o subjetivo
generalizado. É comigo, o homem errado.
Mas eis que no fim desta agonia
Olho, ao núcleo reduzido que gemia
E vejo que sobram uns poucos homens
Amigos? Deuses? Musas? Apenas homens...
Não posso racionalizar a amizade
Talvez exista, talvez não resista
Talvez seja lenda, talvez uma prenda
Para a gente enganar. Quem sabe?
Se há problema não é com o subjetivo
generalizado. É comigo, o homem errado.
Mas eis que no fim desta agonia
Olho, ao núcleo reduzido que gemia
E vejo que sobram uns poucos homens
Amigos? Deuses? Musas? Apenas homens...
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