domingo, 29 de abril de 2012

A via em construção


Erguem-se tijolos e caem suores
de pouco em pouco já se está visível
passa uma senhora com seu cão ladrante
e lá de cima vê-se a vida passando
tocam os sinos das catedrais
(espere, não há religião neste estado!)
a hora do almoço é a mais aguardada
a vida segue mesmo se eu não almoçar.

Prepara-se a massa para unir tijolos
que aos poucos formam uma forma
a reforma de uma parede eterna e grande
que oculta tudo que está atrás
ouço o latir de um cão agonizando
infelizmente caiu um balde no chão
talvez a vida seja somente um instante
uma via única, sem contramão.

Desço do alto do edifício empírico
perco-me no meio da multidão
tomo um ônibus lotado e cheio
esbarro em um homem de terno preto
sinto o ódio rugir aos meus ouvidos
talvez eu não seja um ser querido
o cheiro do café me seduz bastante
a ideia de retorno a casa me felicita.

A solidão amarga de uma cama vazia
transtorna a mente e sinto saudades
do pedaço de tijolo que lá em cima luzia
o queijo apodreceu em cima da mesa
o cão se farta com sua ração vegetariana
o quadro da cama não tem mais beleza
a televisão me traz a rotina somente
a noite é a noite e precede o dia.

O galo canta a sua música própria
o ônibus lota, as pessoas ficam incomodadas
o elevador parou, só restou as escadas
a massa mudou de empresa
o sol está quente e ri de minha cara
lá de cima vejo a beleza das ruas
não vejo muita coisa senão vultos
mas por serem foscos é que são belos.

Tijolo por tijolo se constrói a vida
as paredes são sólidas, bastante sólidas
as músicas não se distinguem para um surdo
a menos que ele abra seu coração
a senhora passeia com seu cão novamente
a rotina cansa quem a percebe
o destino sempre faz o lobo comer a lebre
e a hora do almoço se aproxima.

Leio pequenas cartas de um romance
o amor procura o amor procura
constrói sempre com cimento firme
a lanterna necessária para a noite escura
toca o alarme de retorno à labuta
a barriga cheia me oferece o ócio
como descansar seria ótimo e bom
as buzinas são como cordeiros passando.

Pedra sobre pedra penso construir Roma
e ser o imperador deste vasto império
os pássaros voam bem perto de mim
cozinham-se em especiarias distantes
fazem tocar as flautas da orquestra da rua
os cães abanam o rabo em respeito
depois de mais uma parede erguida
volta a realidade: a solidão do lar.

O toca disco parece ser meu companheiro
diz frases bonitas e sempre me deixa feliz
o frio é amplificado com o vazio do lado
o cão sempre se sente um grande rei
ir a cozinha beber água é dramático
interrompe o sono perfeito, a felicidade
construir paredes não é de todo ruim
sou eu o maior poeta daquela cidade.

Meus versos são cada tijolo
e construo estrofes com o mover do sol
cada pontuação fixa é uma curva
o olhar para a cidade é a inspiração
o almoço é a ponte mais erguida
a cidade andando sempre em direção
à própria cidade me confunde as rimas
e continuo erguendo paredes com tijolos.

Ao pensar assim me ameniza a dor
quem dera eu pudesse usar de minha massa
para tampar os enormes vãos de minha pessoa
assim como tampo os buracos com cimento
a solução não vive vagando ai à toa
colocar uma janela no andar último cansa
são muitas portas em muitos andares
sorrio sempre ao ver a vida passar lá em baixo.

Raia o sol e a verdadeira face da vida começa
tijolos novos chegam em um velho caminhão
falta pouco, falta muito pouco para o fim
o prédio já está em seu último andar
pausa para o almoço para ser feliz
amanhã é feriado, o ônibus apertado
espero que passe no céu um cometa
há muita fumaça no céu para ver estrelas.

A vida quando jovem me fazia mais
construí na casa de meu pai um cerco
e um barraco para guardar as coisas velhas
penso que lá larguei parte de mim
a parte que me torna alguém visível
em meu primeiro trabalho eu me perdi
e desde então sempre venho tentando
a cada tijolo que ergo me construir.

A altura me deixa tão distante
gozo da alegria de estar no topo
sinto-me um sábio em sua torre alta
não sofro os males que lá em baixo habitam
são oito horas de uma viajem ao espaço
passear na luta sem gravidade é belo
é sempre estrelado quando se está saltando
me alegra a vida de ser astronauta.

Finda-se a felicidade junto com a obra
o prédio, potente, já esta perfeito
imponente parece governar a cidade
mais uma obra feita com o meu suor
o café me faz me sentir um presidente
o próximo passo é construir de novo
há muito cimento, há muito cimento
o ônibus continua lotado com pessoas de terno.

Construir uma via para as pessoas
passarem como bons transeuntes
e os cachorros e as senhoras sem nome
mas construir no baixo, no meio da vida
não mais a grandeza de vê-la de cima
não mais o café daquela outra empresa
retorno para a casa e engolir a notícia
a solidão da cama irá me acalentar.

Construir uma via não me é belo
não quero pés passantes em minha obra
custo a acreditar nesta derrota
as pessoas me olham feio, muito feio
talvez seja o chapéu, fora de moda
ou eu tenha me tornado um poeta ruim
não ergo mais paredes, somente asfalto
sou a fonte do descanso dos pés.

Os cachorros de cima eram mais belos
as senhoras pareciam mais agradáveis
a vida é feia se não vista por vultos
o queijo estraga mais devagar em minha casa
o almoço é ruim, gostava de admirar
não vejo sentido em ser construtor
minha casa precisa de reparos
talvez eu a diminua por excesso de espaço.

Tocam-se todos os sinos das catedrais
regulam-se os cintos de seguranças
inaugura-se uma bela e nova obra
a vida é via em construção eterna
nunca terminarei de construir uma via
sempre haverá de estarem passando
e ao passar gastar-se-á o cimento
e lá estarei eu sempre a reconstruído.